Contitos Perturbados #4 – Oficina

Heitor parou de trabalhar no recesso de fim de ano. Foi para casa, ficou sozinho. Sem nada para fazer,  restou apenas deitar-se, olhando para o teto, com a mente vazia.

Dentro da sua cabeça, escuridão. Uma luminária é acesa. Um homem vermelho de macacão com chifres pontudos na cabeça abre uma gaveta e pega uma caixa de ferramentas.

— Ai, caralho. Esse cara não para de pensar um segundo o ano inteiro. Que mente ocupada! Assim eu não consigo trabalhar, finalmente um tempinho pra mim…

O chifrudo assopra o pó da caixa, abre e tira algumas ferramentas. Bate umas nas outras, tenta aparafusar a própria orelha e joga todas no chão. De outra gaveta, tira uma máquina de escrever e começa a datilografar.

O que será de mim agora? O ano acabou e o que eu quero da minha vida? Estou há vinte anos nesse mesmo emprego estúpido. Não sou valorizado, nem sou bom no que eu faço.

O cara vermelho faz uma breve pausa, estrala os dedos e desanima.

— Muito clichê. Infeliz com o trabalho… grande coisa. Já fui melhor nisso…

O homem pega o papel e amassa até virar uma bolinha. Joga fora e começa de novo.

Ninguém nunca me amou. A Cláudia casou comigo porque foi quem apareceu. O sexo nunca foi bom e nem filhos conseguimos ter. Ou seja, nunca vou ser feliz, nem amado nem…

Pausa na datilografia.

— Vida amorosa também é bobo. E esse Heitor nem gosta de sexo, né? (pega uma pasta com o nome HEITOR na capa e lê em silêncio). É, confere. Não curte contato humano. Ela que deve estar pensando diabos desse robô sem sentimentos! Vamolá, Diabão, você consegue fazer muito melhor do que isso…

Retomada empolgada.

Qual o sentido da vida? De onde vamos, para onde viemos? O que…

Pausa repentina.

— De onde VAMOS? Que porra de frase é essa? Ai meu satanás… Que tá acontecendo comigo? Devo estar quebrado… Pra que isso, gente? Pra que tantos anos se dedicando para acabar um merda que não consegue escrever uma linha original. Também sou infeliz com meu trabalho e ninguém me ama… Que desperdício de vida… Nossa, preciso parar pra pensar… Quem sou eu?

O diabo deita no chão em posição fetal. Heitor sorri.

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