Contitos Perturbados #2 – Auxílio

Manhã de sábado. Ponto de táxi na frente do restaurante El Chillón. O sol tímido e os taxistas mal-humorados. Ninguém gosta de trabalhar aos sábados. “Prefiro uma sextà noite bem nojenta e perigosa, com um bando de moleques mamados gorfando por todo o meu estofamento e ladrão apontando arma na minha fuça do que a merda de um sábado de manhã!” Diz o velho Cocão para seu colegas, mentindo descaradamente, já que nunca trabalhava às sextas à noite. Deixava para aqueles que gostavam de risco de vida, aventuras escabrosas e manchas permanentes de vômito.

Três horas antes. Jorge abre os olhos sentindo muito frio depois de uma profunda noite de sono e dá de cara com um céu de amanhecer. Deitado de pijama sobre um gramado, o auxiliar de táxi espantado levanta em um pulo só. Jorge olha para os lados freneticamente. Em sua casa, sua esposa Ana dorme sozinha na cama de casal, onde na noite anterior também estava seu marido.  No meio de um parque está ele, sozinho e com superpoderes. Ele pisca os olhos e está de volta em casa. Pisca de novo e está de volta ao parque, pisca de novo e está em uma cafeteria em Budapeste. A verdade é que agora o auxiliar de táxi pode ir para onde bem entender. É magnífico.

Agora. Jorge está em pé ao lado dos taxistas sentados, ouvindo sua conversa fiada enquanto toma café budapestino. Eles falam de futebol e reclamam da falta de clientela. Ninguém mais à vista. Em uma fração de segundo, dois passageiros aparecem ao lado de Jorge. “Da onde esses putos vieram?” pergunta Cocão surpreso. Jorge começa a sumir e reaparecer com mais pessoas em poucos segundos, abastecendo os táxis de fregueses e levantando o ânimo dos motoristas em alguns piscares de olhos. Aos poucos, todos partem com seus passageiros, pisando fundo, empolgados. Jorge fica sozinho observando os carros brancos desaparecerem. O assistente de táxi pisca, e está de volta à sua cama quentinha e aconchegante. “Daqui a pouco volto lá…”, pensa.

Contitos Perturbados #1 – Las Manchas

Uma mancha vermelha gosmenta sobre o chão. Um pouco de chilli que deve ter caído da panela enquanto o cozinheiro preenchia uma travessa. Horas atrás, um cliente comeu da travessa muito feliz e satisfeito. Calmamente, mergulhou os nachos fundo no caldo de carne com feijão e foi degustando como um verdadeiro gourmet.

Da cozinha, Paulo observa o restaurante lotado de jovens famintos, com as luvas sujas de chilli e guacamole através da janela redonda de uma das portas. Dentro da cozinha, o chão está todo vermelho. Muito chilli espalhado por todo canto, bem apetitoso. As manchas de chilli se confundem com manchas de um vermelho mais vivo. Corpos estão deitados e sujos de vermelho. Na mão de Paulo encontra-se uma faca no mesmo estado. As paredes são tomadas por pedaços de nachos e tortillas.

Assobiando, Paulo lava a faca cautelosamente. Passa a esponja com detergente meticulosamente pelos dois lados e pelo cabo do talher. Abre uma gaveta e coloca-a dentro. Vai até os fundos e retorna com balde, rodo e pano de chão. Passa um tempo e o assistente de cozinha sai para o beco atrás do restaurante El Chillón com um saco de lixo bem pesado nas costas. Ele joga o saco ao lado das latas de lixo, entra, volta com mais um saco, joga, entra, volta com mais, joga, entra, volta com mais, joga, entra, volta com mais e mais e mais até a cozinha ficar vazia. Enxuga a testa de suor. Ele entra na cozinha e separa o que restou de chilli em uma cumbuca. Passa papel filme, olha novamente para o restaurante lotado e sorri. Adiós.

Pós-Feira Plana e Loja Online

banderita

Esse fim de semana estive na segunda Feira Plana com meu mais novo livro, “A Mulher que ia Navegar”, uma adaptação da crônica de mesmo nome do Rubem Braga!

O evento foi muito bom: recheado de publicações independentes de muita qualidade e bem diverso. Não consegui ver tudo, até porque passei a maior parte dele tentando vender meu próprio trabalho, claro hehe! Fiquei feliz com as vendas,  poder mostrar meu trabalho por aí e ver tanta gente bacana publicando e vendendo seus trampos, fazendo o que acredita e porque gosta, e coisas sensacionais nesse cenário independente!

A feira lotou de público, foi um grande sucesso, assim como a primeira! Valeu Bia e todos envolvidos na organização desse que é um dos eventos mais legais que já vi em SP. Que venham muitas outras planas!

A feira acabou e para quem ainda não teve a chance de conhecer e comprar o meu livro, ele está à venda nas seguintes lojas:

E agora também abri a minha própria lojinha virtual dentro da fanpage no Facebook! Tá inaugurada, é só comprar por lá que eu te mando a Mulher!

Direto do autor >> Minha loja!

E vamo que vamo!

Abraços!

João